é a minha rua preferida do Porto. Já a devo ter percorrido, para trás e para a frente, uns milhares de vezes, sem exagero. Desde que vinha cá passar alguns fins de semana e ver os avós, quando ía com os meus pais à baixa no 20 e voltávamos a pé por Cedofeita acima, até aos gloriosos tempos de estudante, em que o Piolho e a Gesto ficavam na outra ponta da Cedofeita. 20 minutos a pé, one way, e estava lá tudo; algumas vezes tinha que vir a pé da Ribeira, e inevitavelmente tinha que cruzar a autoestrada pavimentada a calcário e ladeada a sapatarias. Foi a única rua onde fui assaltado, a um domingo de manhã, e sem grande sucesso para o guna (também, foi-se meter com um estudante teso que não tinha dormido a noite anterior).
Hoje lá a percorri mais uma vez, até ao alfaiate, e já nem são as figuras que me chamam a atenção (mais coisa menos coisa, são as mesmas do post anterior). São as lojas, isso sim: começando na igrejita da Ramada Alta, passando por vários cafés, cabeleireiros, uma loja de cartuchos de impressora, o Tribunal e prisão de menores, depois passa-se por baixo do comboio, agora metro, e aparecem os restaurantes de esquina, as sapatarias, a loja indiana, mais sapatarias, uma ou duas lojas de roupa sempre às moscas, alguns cafés que têm invariavelmente a mesma clientela até ela morrer, a loja dos guarda chuvas e das mochilas, toda em madeira, mais uma sapataria, uma loja de telemóveis, uma rua cheia de stencis contra a guerra nas paredes, a loja das gangas, Teddy Boy, agora em monumental promoção, uma outra rua inclinadíssima que não se sabe muito bem onde é que acaba, mais sapatarias a rodos, finalmente o multibanco perto do qual estão sempre umas putas muito velhas e decadentes, a qualquer hora do dia, antecede o clímax - a Praça de Carlos Alberto, com o restaurante homónimo, a cagada que fizeram do teatro lá atrás escondida (ainda bem), o local de repouso do mítico Luso, e depois os Leões e o Piolho.
Mas já não vou lá há uns tempos, e hoje o destino é mesmo o alfaiate, pouco mais à frente nos Clérigos. Esse também é dos de molde quebrado, isto é, quando acabar já não fabricam mais. Trabalha na rua de Trás (que justamente fica atrás da rua principal dos Clérigos, que nome fixe) e quando toco à campaínha ouvem-se as escadas a ranger e lá vem ele. Quando me vê, os olhos sorriem: Sr. Arquitecto para aqui, Sr. Arquitecto para ali e leva-me ao verdadeiro alfaiate, que trabalha num tugúrio uns metros mais acima na mesma rua. Depois diz-me: Sabe, é sempre melhor vir eu, porque eles são muito boas pessoas, mas depois fazem como eles querem e não querem saber do que gosta o cliente. O Sr. Arquitecto não se preocupe que isso fica como o senhor quer! Peço-lhe um bolso pequeno, à frente nas calças, para enfiar o iPod. Mostro-lhes o objecto mas o único problema deles é se o bolso é à direita: Ai geralmente isso é sempre à esquerda, mas a nossa opinião não vale nada! O Sr. Arquitecto é que sabe.
Sooner or later, também estes vão desaparecer, e as suas casas compradas por algum arquitecto ou promotor que as vai recuperar, e bem, e é bem que assim seja, porque o mundo deles estagnou. E é por isso que é preciso aproveitar enquanto há.
14 de outubro de 2005
a rua de Cedofeita
posto pelo Alexandre às 01:25
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3 comentários:
a minha rua preferida...
sto ildefonso, o troço quem vai dos poveiros para a praça da batalha.
percorrer aquele bocadinho... hum... sabe-me pela vida!
...o fatinho já está em andamento, muito bem...
.... e essa festa?
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